Por vezes sinto que tudo isto não passa de um sonho e que vou acordar para a realidade, mas a verdade é que o sonho é a própria realidade.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Por Entre Véus

Desci as ruas na expectativa de apanhar um pouco de ar fresco pela tarde.
Os dias estavam a ser muito bons e quentes.
Procurei pela minha irmã e lá fomos nós comprar mais roupas e véus.
Zoraide nos esperava em casa. Decidimos que seriamos nós a fazer o jantar e ela continuava sentada na sua cadeira perto da janela à espera de nos ver. Assim que chegámos mostrámos-lhe as iguarias que tínhamos comprado e fizemos cus cus.
A nossa família adorou o jantar que nós lhes proporcionamos e no final, nós mulheres decidimos ir para uma parte da casa onde nenhum homem estaria convidado a entrar, pois é pecado, haram.
Vestimos os nossos novos fatos. Eram lindos e vivos.
Há já algum tempo que tínhamos criado uma nova curiografia e decidimos mostrá-la à nossa família e convidadas.
Colocámos a música a tocar e lá entrámos nós. Estávamos felizes e alegres.
Dançar faz bem ao corpo e à alma. Alivia o stress diário e faz-nos descobrir mais um pouco do nosso próprio corpo.
Decidimos dançar a dança dos 7 véus.
Estávamos bem quordenadas. Se um véu ia para a direita o outro lenço igual ao outro na outra pessoa também seguia essa trajectória.
Todas nos estávamos a divertir, até que vimos duas caras e quatro olhos a olharem para nós fixamente por entre véus.
Ficámos ali as duas a dançar e a olhar atentamente para aqueles dois que ali estavam.
Nenhuma mulher tirando nós, percebeu o que se estava a passar. Conseguimos fazer tudo sem que mais ninguém notasse que estavam ali os homens que nos amavam verdadeiramente. Seria um grande haram e uma grande vergonha para a nossa família.
No final conseguimos ajudá-los a sair pelas traseiras, por entre véus.
O mundo oriental tradicional é mesmo assim.
Um beijo de despedida foi o que nos bastou para acalmar e ao mesmo tempo acelerar os nossos corações que desejavam sair dali para fora e ir para um mundo exterior, onde a mulher não fosse obrigada a casar-se segundo aquelas tradições e sim com quem a nossa alma amava.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nas Areias do Deserto

Vagueei pela Medina apenas com o meu olhar à vista dos demais. Ninguém me poderia reconhecer naquela que seria mais uma das muitas saídas até ao homem de quem eu amava. O som do mercado significava que o dia estava prestes a terminar e as pessoas estariam em casa, mas eu não voltaria assim tão cedo.
Havia uma festa onde véus e saias iriam voar através de corpos sensuais que dançavam ao som de dança do ventre.
Fiquei por lá durante uma hora a dançar. O meu sari cor de rosa clarinha definia a minha silhueta em todos os meus movimentos. Passado uma hora cobri-me novamente com o meu véu e sai para o meio da escuridão.
O ar estava quente e com o seu cheiro doce habitual.
Corri até ao nosso porto de abrigo, onde mais ninguém nos iria encontrar na tamanha felicidade que nos unia.
Senti que estava na altura e na hora de dar aquele passo. Jamais seria outro se não ele.
Percorri o longo caminho de pilares e labirintos.
Começou a chover.
Olhei para o céu contemplando a sua cor.
Estava na hora.
Observei-o através das sombras sem que ele me visse. Contemplei a sua beleza inconfundível,o seu cabelo, os seus olhos, o seu nariz, os seus lábios...
Surgi-lhe por entre as colunas, ele via-me e aproximava-se, mas eu afastava-me.
Fui despindo a minha roupa molhada sem que ele se desse conta, ficando apenas com a roupa da dança do ventre.
Comecei a dançar e a fazer o meu jogo de sedução.
Ele assistia de olhos esbugalhados e brilhantes sem conseguir acreditar que eu estava ali a dançar para ele.
Fui aproximando-me devagarinho dançando com o véu à minha volta formando uma espiral.
Ele chorava e ria-se ao mesmo tempo.
Cheguei finalmente ao pé dele e envolvi-o com o meu véu. Abraçamo-nos.
Andámos por colunas e pilares de outras eras, de mãos dadas.
As paredes que nos protegiam tornaram-se assim em testemunhas da nossa entrega.
O som da areia a passar perto de nós fazia o tempo e o lugar mudarem como nas areias do deserto.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Escolha

O que é que me queres? - Gritei esta pergunta ao vento sem pensar.
Fiquei surpreendida comigo mesma. Há já algum tempo que não gritava assim.
Apenas quero a minha liberdade e nada mais.
 É triste quando nos cazam com alguém que não amamos e que somos forçadas a tal apenas porque a família assim o deseja.
Olhei para o horizonte na esperança de um sinal que me dissesse o que devia fazer mas nada. Nem o mais leve arrepio provocado pelo vento. Nada. Apenas o vazio.
Uma lágrima traiu-me e deslizou pela minha pele macia até embater sobre o chão frio.
Deslizei o olhar do horizonte e olhei para o céu. Estava a ficar escuro a cada minuto que passava. Uma tempestade estava prestes a surgir.
Um relâmpago surgiu e poucos momentos a trovoada.
Na minha cabeça a pergunta persistia e teimava em não me querer deixar em paz.
Desci aquele precipício rochoso na esperança de chegar à encosta antes de começar a chover.
Olhei para trás na esperança de ver um sinal que eu já sabia não haver, mas o que é que eu poderia fazer?
Não gosto de viver num mundo de ilusões em que o maior prejudicado é aquele que se deixa iludir.
Corri o mais rápido que pude até à encosta, com o coração aos saltos da corrida e não só. Algo se aproximava e eu sentia-o.
Encostei-me a uma rocha para recuperar o folgo e o sinal que eu tanto esperava ali estava.
Uma outra lágrima traiu-me e ele viu.
Não valia a pena eu dizer que não. Ele já sabia da verdade toda em relação ao que eu sentia por ele. Mas eu não conseguia mudar as coisas e ele sabia o que isso implicava. Eu estava encurralada.
O meu marido apareceu do outro lado do caminho e viu que afinal eu ainda não tinha esquecido aquele homem que se encontrava à minha frente implorando que eu fugisse com ele.
A minha dor foi maior que eu própria e deixei-me cair.
Eu pedira tanto a Deus que aquele momento não chegasse, mas o Homem não deve mudar as escolhas de Deus, e se era aquilo que estava escrito, então que fosse assim.
Vieram homens de vários lados que nos agarraram.
Eu não conseguia tirar os olhos de cima do homem que eu realmente amava.
Os nossos olhos é que nos denunciavam.
As lágrimas bloquearam a minha visão.
Depois mais nada.
A chuva começou a cair.
Ficámos a olhar um para o outro, dizendo juras de amor que nunca se iriam realizar, mas quem sabe numa outra vida isso poderia acontecer tal como desejávamos agora.
Uma trovoada arrebentou mesmo por cima de nós e foi tudo.
Demos as mãos um ao outro sem olhar para trás.
Tínhamos a eternidade toda à nossa frente.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Palavras Por Dizer

O oceano pode ser infinito
E confundir-se com o azul do céu
Mas por entre ele
Alguém visualiza o que acontece à frente do seu véu

A noite chegara sem avisar
Dois seres pernoitam entrelaçados
Por entre as areias quentes do deserto
Que cantam as suas melodias de hipnotizar

O pôr do sol nunca antes visto
É lindo e perfeito aos seus olhos
Que se emocionam com tamanha beleza
Sem nunca largarem as mãos

Palavras que nunca foram ditas
São agora vistas
Olhares penetrantes que dizem e que choram
Tudo o que o coração dita

São gestos que duraram
Por entre a noite fora
Nas areias quentes do deserto

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Música Nos Dias De Hoje

Hoje em dia o que está mais na moda são as músicas de discotecas, remix de êxitos de outros tempos e música comercial que é apenas boa ou não para o ouvido.
Onde é que estão os bons músicos que evolucionaram a música para que hoje existisse o que passa nas rádios?
Onde é que estão os bons compositores e poetas que compõem as suas músicas e escrevem os seus poemas?
Tudo isto parece estar em vias de extinção.
O homem cria e destrói o que cria com as suas próprias mãos. E a música é uma delas.
Noto que a cada ano que passa, a música fica cada vez pior, mas é aqui que existe a grande diferença.
A música é uma arte usada pelo homem, para exprimir os seus sentimentos mais profundos, sejam eles bons ou maus e nasce uma música.
A música é o espelho da alma.
Onde é que estão as bandas que contribuíram na história da música e na sua evolução?
Infelizmente o mundo da música é muito traiçoeiro e nem sempre as coisas são justas. Vou focar um exemplo muito bom para esta pergunta que referi.
Há mais de 20 anos existiu uma banda que contribuiu com a evolução da música e criou assim, um novo estilo de música e até uma nova imagem.
As músicas da banda eram originais seus e que falavam das suas vivências pessoais.
Pergunto novamente. Onde é que estão estas bandas?
Estas bandas estão representadas nas músicas que ouvimos hoje. Estão cobertas por um nome que não é o seu. Cobertas por nomes e vozes que não são as suas verdadeiras vozes.
São músicas que renasceram para serem trabalhadas novamente e assim saírem dos seus momentos de glória e ficarem esquecidas no tempo. São músicas perdidas no vento que vão em busca da verdadeira voz que lhes deu vida.
Será que é mesmo preciso matar-se a música?
Se a música não nos quer abandonar, então porquê abandoná-la?
Por favor criam boa música e deixem a música antiga, porque esses tempos não voltam mais. Uma renovação seria óptima e se passassem música decente nos bares e discotecas os tempos seriam bem melhores.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ao contrário

Senti-me tonta por instantes sem saber o que estava a acontecer.
Ao meu lado algo se aproximava. Era fumo.
Sentei-me no baloiço abandonado que baloiçava lentamente.
As sombras regressavam às suas armadilhas e artimanhas. De repente o mundo mudou.
Tudo estava descontrolado naquele lugar.
As pessoas continuavam com as suas rotinas normais, sem se darem conta de que algo estava a acontecer.
Fechei os meus olhos e agarrei-me fortemente às correntes de ferro.
O tempo passou devagar.
Abri os olhos.
Estava tudo de pernas para o ar.
Olhei para o resto e reparei que eu era a única assim.
A minha vida deu uma grande volta.
Tudo estava agora diferente na minha visão do mundo.
As nuvens embalavam o meu baloiço cantando uma melodia doce e suave aos meus ouvidos.