
A vida a cada um pertence e como já deve ser de senso comum, o que cada um faz, só a si lhe diz respeito, mas nem todos pensam assim.
Raquel adorava passear depois das aulas com a sua melhor amiga Carla pelo parque. O parque era calmo, não havia muita gente por aquelas horas da tarde, e era um óptimo local para desabafarem uma com a outra, escrever, cantar, ler e até estudar.
Mais um dia monótono que passou e Raquel não conseguia parar de pensar no que se passava na sua vida. Era como se tudo tivesse virado de pernas para o ar do dia para a noite. Ela era ex namorada de Jorge, um rapaz muito cobiçado por todas as raparigas do liceu, era um mulherengo de primeira categoria.
Jorge era um rapaz elegante, bonito (cara de anjinho - estes são os que mais pratos partem), educado (só quando lhe dá jeito) e muito convencido. Ele adorava sentir que tinha não uma nem duas, mas sim muitas mulheres a cair para os lados sempre que o viam a aparecer, mas que belo "EU" não haja duvidas. Este é o tipo de homens que num encontro é necessário três cadeiras em vez de duas, ou seja, uma para a rapariga, uma para ele e outra para o EGO dele.
É muito difícil amar alguém e descobrir que tudo não passa de mentiras e enleios que levam a mais mentiras, ou seja cria assim o efeito "novelo de lã", em que já não se sabe onde está a ponta do inicio da história e cada dia que passa o novelo dá mais uma volta.
O dia estava ameno e tudo o que Raquel mais queria era poder deitar-se sobre a relva e poder conversar sobre tudo o que quisesse com Carla, mas o tema de conversa já começava a ser um pouco monótono e cansativo tanto para Raquel como para Carla.
A vida dela estava um autêntico inferno, não conseguia comer como deve ser, as noites eram um pesadelo e a dor que sentia pela traição eram insuportáveis.
Carla já não sabia o que dizer ou fazer perante a situação da amiga.
Os dias iam passando lentamente e Raquel não sabia o que deveria fazer para esquecer o que se tinha passado. Ela queria seguir com a vida dela para a frente mas era difícil.
Como é que uma pessoa que se entregou de corpo e alma a alguém consegue superar o que ela estava a passar?
Iria ela conseguir voltar a sorrir?
Perguntas, perguntas e mais perguntas sem respostas que seguiam-na dia e noite sem cessar.
Carla porém, não estava numa situação melhor. Amava, mas não era correspondida, aliás era gozada e usada sem se dar conta disso.
Mas o que é que se passa neste Mundo? Uma foi traída, a outra amava, mas não era respeitada e humilhava-se a ela própria a algo que não lhe fazia feliz.
Os dias iam-se passando, até que Jorge surgiu com uma conversa muito estranha a Carla, a perguntar se elas as duas iam de vez em quando até ao "Jardim dos Condenados", que ficava numa cidade não muito longe daquela. Carla disse-lhe que não era costume irem para lá, visto ser fora dali.
À noite já Carla se estava a preparar para se ir deitar quando o telemóvel tocou. Era a Raquel a perguntar muito preocupada se a amiga sabia de alguma coisa fora do normal, pois o seu ex estava com umas conversas estranhas e a falar sempre no "Jardim dos Condenados". Elas tinham lá ido fazia duas semanas, e o que mais acharam estranho foram certos tipos de conversa que ele disse, pois apenas elas é que têm esse tipo de conversas (são os desabafos delas e de mais ninguém).
Estava tudo tão estranho, era difícil não pensarem nisso, pois era o presente e elas não podiam mudar nada disso.
Uma semana que passou, e mais uma vez, Jorge surgiu com a mesma conversa.
- Mau - pensou Carla, que já não estava a gostar nada da conversa.
Diogo (o rapaz de quem Carla estava apaixonada), era o melhor amigo de Jorge. Ele era também muito elegante e mais um com cara de boneco, ou seja mais um com mania de ser bom.
Carla não sabia o que fazer ou pensar. Diogo por sua vez tentava usa-la para seu belo prazer, mas ela sabia que ele andava com alguma na manga.
As duas decidiram ir ao local que tanto um como o outro falavam e decidiram investigar o local. Só podia ter algum tesouro lá escondido e se era isso elas queriam descobri-lo.
Decidiram lá ir e Carla ingénuamente disse a Diogo que iriam até à cidade.
Chegaram à cidade, por volta da hora do almoço, almoçaram, passearam e quando chegou a hora, decidiram ir para o Jardim.
O "Jardim dos Condenados" pertence a um palácio do século XVIII, que foi construído por um médico da altura, que tinha como desejo oferecer o palácio à sua futura esposa Ana de Barcelos, mas esta deixou-o quando a construção já estava a meio, por um homem mais velho e mais rico que o médico. Marco ficou de rastos ao ver que o seu Mundo tinha desabado, e viu que o palácio já não teria a mesma cor nem o mesmo brilho sem Ana. Decidiu continuar com a sua construção, mas fez algumas mudanças nas decorações das estátuas, tinha muitos anjos e muitos demónios a adornar as torres e no portão tinha duas estátuas uma de cada lado em que a cara de um lado era anjo e do outro demónio.
O médico decidiu que seria ali que iria fazer as suas experiências e estudos científicos.
Quando o palácio foi inaugurado, o médico fez um baile em honra de Ana e fez dele moradia para Reis de todos os cantos do mundo.
Alguns anos depois, o médico ficou louco devido à depressão, e com ele o palácio deixou de ter brilho e magia, passando assim para um local onde as pessoas recusavam a ir, ou passar ao pé. O povo deixou de ver o médico e começaram a dizer que o palácio estava assombrado.
Com o passar dos anos, o palácio ficou ao abandono e quando um jovem fascinado por todo aquele monumento e por todas as histórias que se falam, decidiu partir à aventura e ver com os seus próprios olhos, as maravilhas que lá existiam.
O rapaz explorou todo o local e descobriu algo que muitos ignoravam.
Ele escreveu num diário toda a história do palácio, mas ninguém queria acreditar no que ele dizia, a melhor maneira para o calar foi com o argumento de que ele estava louco tal como o proprietário do palácio, que com tantas experiências lançara uma praga sobre todo o palácio. Isto eram tudo histórias inventadas pelas pessoas mais velhas, que temiam por tudo e por nada. Mas o jovem não se deixou intimidar e fez do diário um dos seus maiores tesouros e foi deixando o diário passar de geração em geração até que um parente quis levar o segredo consigo para sempre.
Raquel e Carla chegaram até aos portões e mais uma vez ficaram paradas a olhar para as estátuas como se fosse a primeira vez que ali iam.
Seguiram o carreiro das árvores que ao longo do caminho formavam mais carreiros e apenas quem os conhece sabe para onde se dirigir.
Ficaram a observar com admiração para todas aquelas árvores e para todo aquele habitat natural que fazia daquele local um dos mais belos que se poderia ver. O barulho da cascata que caia por trás do palácio e que passava mesmo no jardim, faziam as delicias de qualquer um e contribuía assim para ser um local de culto para elas as duas.
Decidiram ir para o local onde dava para ver a cascata em todo o seu esplendor, encostaram-se a uma estátua que ali estava, sentaram-se ao lado e esta moveu-se o suficiente para deixar a descoberto uma caixa de ouro a dizer "DIVANO" que significa "Conselho".
As duas ficaram de boca aberta a olhar para o objecto, tiraram-no para fora do buraco, voltaram a colocar a estátua no sitio, e ficaram a admirar a caixa.
No momento em que Raquel passou a mão pelo nome, a caixa abriu-se e tinha lá dentro uma carta já amarela devido ao tempo em que foi escrita.
Nada daquilo fazia sentido, até porque não existia fechadura e quando Carla passou a mão antes de Raquel, a caixa não se abrira.
Raquel retirou a carta e as duas começaram a ler o que lá estava escrito.
"Meu querido anjo, apenas tu e só tu me poderás salvar.
Porque é que me deixas-te?
Terei eu cometido algum crime e não sei de nada?
Será que não sei amar-te tal como desejavas e decidiste pôr um ponto final em tudo?
Este palácio não é nada sem ti, este sitio por muito belo e maravilhoso que seja, não vale nada, é apenas mais um local como muitos outros, é apenas mais um local onde existe apenas paredes nuas.
Querida Ana esta casa sem ti está morta, tal como eu.
O Mundo acabou para mim no dia em que partiste e não me quiseste levar contigo.
Porquê que partiste? Porquê?
Já não aguento mais, esta dor é insuportável, quero morrer, aliás já morri.
Tu mataste-me sem que te desses conta. Não consigo mais viver assim, não dá para viver mais.
Amo-te para sempre.
Do Teu e Para Sempre Teu
Marco"
- Isto é bastante sinistro! - disse Carla à amiga.
Decidiram sair dali e foram fazer investigações para saber o que é que se passava ali.
Falaram com pessoas mais velhas, para que estas lhes pudessem contar histórias e lendas sobre o palácio e sobre o médico, fizeram pesquisas pela Internet, mas o que encontravam era noticias a dizer que o médico tinha enlouquecido.
No dia seguinte voltaram à cidade e foram até ao local onde encontraram a caixa.
Investigaram aquela área ao máximo e descobriram uma passagem secreta.
como não tinham muitos materiais, decidiram voltar no dia seguinte, para assim poderem trabalhar como deve ser. Quando saíram do palácio, Carla ficou com a impressão de que conhecia uma pessoa que acabara de passar por elas de carro, mas não conseguiu ter a certeza se o que tinha visto era ou não verdade.
Voltaram ao palácio com o material que necessitavam e levaram comida, pois podiam passar lá a noite que ninguém as iria encontrar ali. Isso pensavam elas, mas havia um problema. Estavam a ser seguidas naquele momento. Havia alguém por entre a florestação que as andava a seguir e a fotografar sem que elas dessem por isso.
Entraram na passagem secreta, pegaram nas tochas, acenderam-nas e começaram a andar.
A passagem era húmida e fria, toda ela era de pedra e tinha umas fendas, por onde corriam linhas de água vinda da cascata.
Andaram durante 30 minutos sempre em linha recta, até que encontraram uma porta de ouro com a mesma descrição da caixa "DIVANO".
A porta tinha um buraco com o formato da caixa de ouro que elas encontraram à dois dias atrás. Colocaram a caixa na porta e esta abriu, dando passagem para uma outra sala.
A nova sala era parecida com a outra, tirando o facto de esta ter um tapete vermelho a percorrer todo o caminho e em vez de água a correr como na outra era sangue.
As jovens não se deixaram intimidar, devido a elas terem visto que antes estava ali água e de repente apareceu sangue. Só havia ali uma coisa que não encaixava na cabeça delas, de onde é que aquele sangue todo vinha?
Perguntas, perguntas e mais mistérios naquele local.
Desta vez a sala tinha curvas e mais curvas, não paravam de descer e de subir constantemente, até que encontraram mais uma porta que dizia "Alea Jacta Est" que significa "Os Dados Estão Lançados". Desta vez, não existiam formas na parede, e nem maçaneta. Estavam encurraladas e cansadas de mais para voltar para trás.
Carla que adorava transcrições fonéticas, mistérios, latim e sobretudo filosofar, sentou-se em frente à porta, observou-a com toda a atenção de maneira a que nenhum pormenor lhe faltasse, para assim poder saber como a abrir.
Raquel não sabia o que fazer a não ser esperar.
Passaram 30 minutos, até que Carla de sorriso rasgado olhou para Raquel, e disse-lhe para que ela passasse a sua mão direita pela frase. Raquel assim o fez e a porta abriu-se para alegria de ambas.
A porta deu a mais um tonel mas desta vez mais pequeno. Andaram cinco minutos até a uma escadaria que deu a uma porta de madeira. Esta porta foi mais fácil de abrir, pois tinha a chave ao lado e mais uma caixa...
Carla pegou na caixa, enquanto que Raquel abria a porta. Entraram para uma sala e repararam que a passagem secreta acabara ali.
Fecharam a porta atrás de si e foram abrir a caixa. Esta era igual à outra e quando Raquel a abriu, olhou lá para dentro e de seguida para Carla com lágrimas no rosto. Carla olhou para a amiga e não percebeu o que se passou para esta ter entrado em estado de choque. Raquel retirou lá de dentro uma fotografia, uma carta e um diário.
Mostrou a fotografia à amiga e aí Carla percebeu tudo.
Olhou para o local de onde tinha saído e já não havia ali a porta, no local dela estava um quadro pintado a óleo de uma mulher. Era Raquel.
Raquel não se conseguia mexer com o choque que apanhou, e Carla decidida a descobrir o que se passava, decidiu acender todas as tochas que ali se encontravam.
O local estava cheio de estátuas mas desta vez eram anjos e um santo?!
Carla não queria acreditar no que os seus olhos viam e chamou Raquel à realidade.
Estavam numa igreja subterrânea. As paredes estavam forradas com quadros de Raquel e de Jorge?!
Ok... Se já tinha sido sinistro aquilo que elas passaram, então agora nada fazia sentido.
Ao centro estavam sepultados o médico e a Ana. As estátuas estavam de mão dada, por cima havia um espelho e aí elas viram que Marco e Ana eram parecidos a Jorge e Raquel.
Raquel ainda tinha a carta, juntamente com o diário e a fotografia de Ana na mão e decidiu ler a carta.
"Querido Marco,
Esta noite seremos como um só.
Nada nem ninguém nos poderá separar.
Meu Amor estarei à tua espera no local onde os Anjos nunca dormem e aí poderei dizer que és tu e apenas tu que eu mais amo nesta vida.
Com Amor,
Ana"
Carla leu e releu a carta enquanto que Raquel lia o diário de Ana.
Havia ali uma parte que não batia certo no meio da história.
A carta que Marco escreveu não encaixava nesta e as histórias que se contavam também não.
Raquel leu algumas passagens do diário e houve uma que lhe chamou à atenção. Eles iam-se casar na noite seguinte, daí a carta que ela lhe escreveu.
Marco escreveu uma nota no diário a perguntar "PORQUÊ?" e quando ela foi virar o diário, uma outra carta caiu. Era uma carta direccionada a Marco por um Emanuel (primo irmão de Marco).
"Querido primo,
Como é que tendes passado?
Estou desejando poder conhecer sua noiva Ana, que tão bem tenho ouvido falar.
Vossas excelências Duques de Bragança, pediram-me formalmente para ir ao baile representar a casa de Bragança, visto estarem doentes.
Como deveis saber é meu dever rogar pelo bem estar da família.
Desejo ver vossas excelências em breve.
Seu primo Emanuel."
- Doentes? Hum... Interessante! - Exclamou Carla.
Saíram do túmulo, subiram uma escadaria e foram dar até ao salão principal do palácio.
As estátuas do salão eram magnificas e mais uma vez haviam quadros de eles os dois.
Carla reparou num pormenor muito importante nos quadros, mas não disse nada a Raquel.
Decidiu irem seguir os quadros, pois eles estavam a contar uma história e assim o poderia saber o final de tanto mistério.
Cá fora quem andava a seguir as duas jovens perdeu-se ao longo do jardim, passando da cascata para lá, para os bosques do palácio.
A pessoa não sabia o que fazer, pois não era dali e telefonou para quem lhe informou sobre elas, de maneira a poder sair dali e voltar para o carro, na esperança de as poder seguir, quando elas saíssem do palácio.
No palácio as pesquisas continuavam sem parar até que chegaram a um corredor sem saída. No fim do corredor havia um pedestal com um livro aberto.
Viram o livro, desfolharam-no e viram uma fotografia de Emanuel e uma carta dele que nunca fora aberta.
Elas não pensaram duas vezes e abriram a carta.
"Como todos vós sois tolos.
Vós não tendes nada, eu sou o único que tem.
Agora estou mais completo.
A minha vingança chegou ao fim e fiquei com tudo a que era seu.
Não consegui o amor de Ana, mas vós também não, pois fui eu que a matei.
Agora sois vós que se matou e eu não precisei de fazer nada para isso.
Até nunca,
Emanuel."
Agora já tudo estava certo. Agora já conseguiam perceber o porquê de todas aquelas cartas, mas não conseguiam perceber o porquê de tanto ela como Jorge serem tão idênticos a Ana e a Marco.
Já estava de noite e elas decidiram abandonar o palácio. Foram para a casa de Raquel, para poder ver bem as fotografias e também para pesquisarem a família de Raquel através de cartas e fotografias.
Descobriram que tanto ela como Jorge eram descendentes de Ana e Marco daí a serem supostamente semelhantes.
Um carro ficou lá em baixo do outro lado do prédio. A pessoa não desistiu de as seguir e ficou lá a noite toda.
Na manhã seguinte as duas amigas foram para a escola, e quando estavam a sair do prédio, Carla reparou no carro. Ela não queria acreditar no que estava a ver. Chamou Raquel silenciosamente, e foram ao pé do carro. Raquel não conseguia acreditar no que se estava a passar. Mas que grande descaramento.
No carro estavam Jorge e Diogo com uma máquina fotográfica e uma de filmar, juntamente com mapas, e fotografias delas nas compras, no parque, na escola...
Raquel foi a casa buscar uma buzina de ar comprimido, voltou ao carro e apitou.
Eles acordaram com um salto enorme, e um bateu com a cabeça com toda a força no volante e até apitou.
Raquel pregou-lhe um murro na cara, e disse-lhe que eles não tinham nada de andar a espiar, que ele era um nojento e que estava farta dele. Já não havia volta a dar, ela não queria ouvir explicações para algo que não fazia o mínimo sentido.
Nunca mais lhe meteu a vista em cima. Sempre que ela via que era ele que aí vinha, metia-se a falar ao telemóvel, ouvia música, ou simplesmente era como se ele fosse invisível.
Passaram-se dois meses após o acontecimento.
Jorge já não era tão cobiçado como o fora outrora. Agora depois de saberem o que ele e o amigo fizeram, ninguém quis se dar com eles.
Carla esqueceu Diogo e adorou uma noticia que lhe chegou aos ouvidos, podia não ser de fonte segura, mas só podia ser verdade.
Jorge e Diogo adoraram seguir e pesquisar o que ambas faziam, com quem falavam, entre outros, mas veio-se a descobrir que se enganaram nas pessoas que deveriam pesquisar.
Rocksana namorada de Jorge (desde que Raquel acabara com ele) andou o tempo todo a usá-lo para conseguir apenas bem material, pois o resto ela dizia que isso não era para ele mas sim para o outro.
De que serviu ele armar-se em paparazzi?
Serviu para ele ver que afinal deveria pesquisar quem não conhece e deixar as pessoas que convivem com ele em paz.
A conclusão que este paparazzi chegou foi que ele tinha de ser paparazzi de si próprio, pois chegou à conclusão que não sabia nada de si.
A isto eu chamo "Estagiário de Paparazzi".
Raquel adorava passear depois das aulas com a sua melhor amiga Carla pelo parque. O parque era calmo, não havia muita gente por aquelas horas da tarde, e era um óptimo local para desabafarem uma com a outra, escrever, cantar, ler e até estudar.
Mais um dia monótono que passou e Raquel não conseguia parar de pensar no que se passava na sua vida. Era como se tudo tivesse virado de pernas para o ar do dia para a noite. Ela era ex namorada de Jorge, um rapaz muito cobiçado por todas as raparigas do liceu, era um mulherengo de primeira categoria.
Jorge era um rapaz elegante, bonito (cara de anjinho - estes são os que mais pratos partem), educado (só quando lhe dá jeito) e muito convencido. Ele adorava sentir que tinha não uma nem duas, mas sim muitas mulheres a cair para os lados sempre que o viam a aparecer, mas que belo "EU" não haja duvidas. Este é o tipo de homens que num encontro é necessário três cadeiras em vez de duas, ou seja, uma para a rapariga, uma para ele e outra para o EGO dele.
É muito difícil amar alguém e descobrir que tudo não passa de mentiras e enleios que levam a mais mentiras, ou seja cria assim o efeito "novelo de lã", em que já não se sabe onde está a ponta do inicio da história e cada dia que passa o novelo dá mais uma volta.
O dia estava ameno e tudo o que Raquel mais queria era poder deitar-se sobre a relva e poder conversar sobre tudo o que quisesse com Carla, mas o tema de conversa já começava a ser um pouco monótono e cansativo tanto para Raquel como para Carla.
A vida dela estava um autêntico inferno, não conseguia comer como deve ser, as noites eram um pesadelo e a dor que sentia pela traição eram insuportáveis.
Carla já não sabia o que dizer ou fazer perante a situação da amiga.
Os dias iam passando lentamente e Raquel não sabia o que deveria fazer para esquecer o que se tinha passado. Ela queria seguir com a vida dela para a frente mas era difícil.
Como é que uma pessoa que se entregou de corpo e alma a alguém consegue superar o que ela estava a passar?
Iria ela conseguir voltar a sorrir?
Perguntas, perguntas e mais perguntas sem respostas que seguiam-na dia e noite sem cessar.
Carla porém, não estava numa situação melhor. Amava, mas não era correspondida, aliás era gozada e usada sem se dar conta disso.
Mas o que é que se passa neste Mundo? Uma foi traída, a outra amava, mas não era respeitada e humilhava-se a ela própria a algo que não lhe fazia feliz.
Os dias iam-se passando, até que Jorge surgiu com uma conversa muito estranha a Carla, a perguntar se elas as duas iam de vez em quando até ao "Jardim dos Condenados", que ficava numa cidade não muito longe daquela. Carla disse-lhe que não era costume irem para lá, visto ser fora dali.
À noite já Carla se estava a preparar para se ir deitar quando o telemóvel tocou. Era a Raquel a perguntar muito preocupada se a amiga sabia de alguma coisa fora do normal, pois o seu ex estava com umas conversas estranhas e a falar sempre no "Jardim dos Condenados". Elas tinham lá ido fazia duas semanas, e o que mais acharam estranho foram certos tipos de conversa que ele disse, pois apenas elas é que têm esse tipo de conversas (são os desabafos delas e de mais ninguém).
Estava tudo tão estranho, era difícil não pensarem nisso, pois era o presente e elas não podiam mudar nada disso.
Uma semana que passou, e mais uma vez, Jorge surgiu com a mesma conversa.
- Mau - pensou Carla, que já não estava a gostar nada da conversa.
Diogo (o rapaz de quem Carla estava apaixonada), era o melhor amigo de Jorge. Ele era também muito elegante e mais um com cara de boneco, ou seja mais um com mania de ser bom.
Carla não sabia o que fazer ou pensar. Diogo por sua vez tentava usa-la para seu belo prazer, mas ela sabia que ele andava com alguma na manga.
As duas decidiram ir ao local que tanto um como o outro falavam e decidiram investigar o local. Só podia ter algum tesouro lá escondido e se era isso elas queriam descobri-lo.
Decidiram lá ir e Carla ingénuamente disse a Diogo que iriam até à cidade.
Chegaram à cidade, por volta da hora do almoço, almoçaram, passearam e quando chegou a hora, decidiram ir para o Jardim.
O "Jardim dos Condenados" pertence a um palácio do século XVIII, que foi construído por um médico da altura, que tinha como desejo oferecer o palácio à sua futura esposa Ana de Barcelos, mas esta deixou-o quando a construção já estava a meio, por um homem mais velho e mais rico que o médico. Marco ficou de rastos ao ver que o seu Mundo tinha desabado, e viu que o palácio já não teria a mesma cor nem o mesmo brilho sem Ana. Decidiu continuar com a sua construção, mas fez algumas mudanças nas decorações das estátuas, tinha muitos anjos e muitos demónios a adornar as torres e no portão tinha duas estátuas uma de cada lado em que a cara de um lado era anjo e do outro demónio.
O médico decidiu que seria ali que iria fazer as suas experiências e estudos científicos.
Quando o palácio foi inaugurado, o médico fez um baile em honra de Ana e fez dele moradia para Reis de todos os cantos do mundo.
Alguns anos depois, o médico ficou louco devido à depressão, e com ele o palácio deixou de ter brilho e magia, passando assim para um local onde as pessoas recusavam a ir, ou passar ao pé. O povo deixou de ver o médico e começaram a dizer que o palácio estava assombrado.
Com o passar dos anos, o palácio ficou ao abandono e quando um jovem fascinado por todo aquele monumento e por todas as histórias que se falam, decidiu partir à aventura e ver com os seus próprios olhos, as maravilhas que lá existiam.
O rapaz explorou todo o local e descobriu algo que muitos ignoravam.
Ele escreveu num diário toda a história do palácio, mas ninguém queria acreditar no que ele dizia, a melhor maneira para o calar foi com o argumento de que ele estava louco tal como o proprietário do palácio, que com tantas experiências lançara uma praga sobre todo o palácio. Isto eram tudo histórias inventadas pelas pessoas mais velhas, que temiam por tudo e por nada. Mas o jovem não se deixou intimidar e fez do diário um dos seus maiores tesouros e foi deixando o diário passar de geração em geração até que um parente quis levar o segredo consigo para sempre.
Raquel e Carla chegaram até aos portões e mais uma vez ficaram paradas a olhar para as estátuas como se fosse a primeira vez que ali iam.
Seguiram o carreiro das árvores que ao longo do caminho formavam mais carreiros e apenas quem os conhece sabe para onde se dirigir.
Ficaram a observar com admiração para todas aquelas árvores e para todo aquele habitat natural que fazia daquele local um dos mais belos que se poderia ver. O barulho da cascata que caia por trás do palácio e que passava mesmo no jardim, faziam as delicias de qualquer um e contribuía assim para ser um local de culto para elas as duas.
Decidiram ir para o local onde dava para ver a cascata em todo o seu esplendor, encostaram-se a uma estátua que ali estava, sentaram-se ao lado e esta moveu-se o suficiente para deixar a descoberto uma caixa de ouro a dizer "DIVANO" que significa "Conselho".
As duas ficaram de boca aberta a olhar para o objecto, tiraram-no para fora do buraco, voltaram a colocar a estátua no sitio, e ficaram a admirar a caixa.
No momento em que Raquel passou a mão pelo nome, a caixa abriu-se e tinha lá dentro uma carta já amarela devido ao tempo em que foi escrita.
Nada daquilo fazia sentido, até porque não existia fechadura e quando Carla passou a mão antes de Raquel, a caixa não se abrira.
Raquel retirou a carta e as duas começaram a ler o que lá estava escrito.
"Meu querido anjo, apenas tu e só tu me poderás salvar.
Porque é que me deixas-te?
Terei eu cometido algum crime e não sei de nada?
Será que não sei amar-te tal como desejavas e decidiste pôr um ponto final em tudo?
Este palácio não é nada sem ti, este sitio por muito belo e maravilhoso que seja, não vale nada, é apenas mais um local como muitos outros, é apenas mais um local onde existe apenas paredes nuas.
Querida Ana esta casa sem ti está morta, tal como eu.
O Mundo acabou para mim no dia em que partiste e não me quiseste levar contigo.
Porquê que partiste? Porquê?
Já não aguento mais, esta dor é insuportável, quero morrer, aliás já morri.
Tu mataste-me sem que te desses conta. Não consigo mais viver assim, não dá para viver mais.
Amo-te para sempre.
Do Teu e Para Sempre Teu
Marco"
- Isto é bastante sinistro! - disse Carla à amiga.
Decidiram sair dali e foram fazer investigações para saber o que é que se passava ali.
Falaram com pessoas mais velhas, para que estas lhes pudessem contar histórias e lendas sobre o palácio e sobre o médico, fizeram pesquisas pela Internet, mas o que encontravam era noticias a dizer que o médico tinha enlouquecido.
No dia seguinte voltaram à cidade e foram até ao local onde encontraram a caixa.
Investigaram aquela área ao máximo e descobriram uma passagem secreta.
como não tinham muitos materiais, decidiram voltar no dia seguinte, para assim poderem trabalhar como deve ser. Quando saíram do palácio, Carla ficou com a impressão de que conhecia uma pessoa que acabara de passar por elas de carro, mas não conseguiu ter a certeza se o que tinha visto era ou não verdade.
Voltaram ao palácio com o material que necessitavam e levaram comida, pois podiam passar lá a noite que ninguém as iria encontrar ali. Isso pensavam elas, mas havia um problema. Estavam a ser seguidas naquele momento. Havia alguém por entre a florestação que as andava a seguir e a fotografar sem que elas dessem por isso.
Entraram na passagem secreta, pegaram nas tochas, acenderam-nas e começaram a andar.
A passagem era húmida e fria, toda ela era de pedra e tinha umas fendas, por onde corriam linhas de água vinda da cascata.
Andaram durante 30 minutos sempre em linha recta, até que encontraram uma porta de ouro com a mesma descrição da caixa "DIVANO".
A porta tinha um buraco com o formato da caixa de ouro que elas encontraram à dois dias atrás. Colocaram a caixa na porta e esta abriu, dando passagem para uma outra sala.
A nova sala era parecida com a outra, tirando o facto de esta ter um tapete vermelho a percorrer todo o caminho e em vez de água a correr como na outra era sangue.
As jovens não se deixaram intimidar, devido a elas terem visto que antes estava ali água e de repente apareceu sangue. Só havia ali uma coisa que não encaixava na cabeça delas, de onde é que aquele sangue todo vinha?
Perguntas, perguntas e mais mistérios naquele local.
Desta vez a sala tinha curvas e mais curvas, não paravam de descer e de subir constantemente, até que encontraram mais uma porta que dizia "Alea Jacta Est" que significa "Os Dados Estão Lançados". Desta vez, não existiam formas na parede, e nem maçaneta. Estavam encurraladas e cansadas de mais para voltar para trás.
Carla que adorava transcrições fonéticas, mistérios, latim e sobretudo filosofar, sentou-se em frente à porta, observou-a com toda a atenção de maneira a que nenhum pormenor lhe faltasse, para assim poder saber como a abrir.
Raquel não sabia o que fazer a não ser esperar.
Passaram 30 minutos, até que Carla de sorriso rasgado olhou para Raquel, e disse-lhe para que ela passasse a sua mão direita pela frase. Raquel assim o fez e a porta abriu-se para alegria de ambas.
A porta deu a mais um tonel mas desta vez mais pequeno. Andaram cinco minutos até a uma escadaria que deu a uma porta de madeira. Esta porta foi mais fácil de abrir, pois tinha a chave ao lado e mais uma caixa...
Carla pegou na caixa, enquanto que Raquel abria a porta. Entraram para uma sala e repararam que a passagem secreta acabara ali.
Fecharam a porta atrás de si e foram abrir a caixa. Esta era igual à outra e quando Raquel a abriu, olhou lá para dentro e de seguida para Carla com lágrimas no rosto. Carla olhou para a amiga e não percebeu o que se passou para esta ter entrado em estado de choque. Raquel retirou lá de dentro uma fotografia, uma carta e um diário.
Mostrou a fotografia à amiga e aí Carla percebeu tudo.
Olhou para o local de onde tinha saído e já não havia ali a porta, no local dela estava um quadro pintado a óleo de uma mulher. Era Raquel.
Raquel não se conseguia mexer com o choque que apanhou, e Carla decidida a descobrir o que se passava, decidiu acender todas as tochas que ali se encontravam.
O local estava cheio de estátuas mas desta vez eram anjos e um santo?!
Carla não queria acreditar no que os seus olhos viam e chamou Raquel à realidade.
Estavam numa igreja subterrânea. As paredes estavam forradas com quadros de Raquel e de Jorge?!
Ok... Se já tinha sido sinistro aquilo que elas passaram, então agora nada fazia sentido.
Ao centro estavam sepultados o médico e a Ana. As estátuas estavam de mão dada, por cima havia um espelho e aí elas viram que Marco e Ana eram parecidos a Jorge e Raquel.
Raquel ainda tinha a carta, juntamente com o diário e a fotografia de Ana na mão e decidiu ler a carta.
"Querido Marco,
Esta noite seremos como um só.
Nada nem ninguém nos poderá separar.
Meu Amor estarei à tua espera no local onde os Anjos nunca dormem e aí poderei dizer que és tu e apenas tu que eu mais amo nesta vida.
Com Amor,
Ana"
Carla leu e releu a carta enquanto que Raquel lia o diário de Ana.
Havia ali uma parte que não batia certo no meio da história.
A carta que Marco escreveu não encaixava nesta e as histórias que se contavam também não.
Raquel leu algumas passagens do diário e houve uma que lhe chamou à atenção. Eles iam-se casar na noite seguinte, daí a carta que ela lhe escreveu.
Marco escreveu uma nota no diário a perguntar "PORQUÊ?" e quando ela foi virar o diário, uma outra carta caiu. Era uma carta direccionada a Marco por um Emanuel (primo irmão de Marco).
"Querido primo,
Como é que tendes passado?
Estou desejando poder conhecer sua noiva Ana, que tão bem tenho ouvido falar.
Vossas excelências Duques de Bragança, pediram-me formalmente para ir ao baile representar a casa de Bragança, visto estarem doentes.
Como deveis saber é meu dever rogar pelo bem estar da família.
Desejo ver vossas excelências em breve.
Seu primo Emanuel."
- Doentes? Hum... Interessante! - Exclamou Carla.
Saíram do túmulo, subiram uma escadaria e foram dar até ao salão principal do palácio.
As estátuas do salão eram magnificas e mais uma vez haviam quadros de eles os dois.
Carla reparou num pormenor muito importante nos quadros, mas não disse nada a Raquel.
Decidiu irem seguir os quadros, pois eles estavam a contar uma história e assim o poderia saber o final de tanto mistério.
Cá fora quem andava a seguir as duas jovens perdeu-se ao longo do jardim, passando da cascata para lá, para os bosques do palácio.
A pessoa não sabia o que fazer, pois não era dali e telefonou para quem lhe informou sobre elas, de maneira a poder sair dali e voltar para o carro, na esperança de as poder seguir, quando elas saíssem do palácio.
No palácio as pesquisas continuavam sem parar até que chegaram a um corredor sem saída. No fim do corredor havia um pedestal com um livro aberto.
Viram o livro, desfolharam-no e viram uma fotografia de Emanuel e uma carta dele que nunca fora aberta.
Elas não pensaram duas vezes e abriram a carta.
"Como todos vós sois tolos.
Vós não tendes nada, eu sou o único que tem.
Agora estou mais completo.
A minha vingança chegou ao fim e fiquei com tudo a que era seu.
Não consegui o amor de Ana, mas vós também não, pois fui eu que a matei.
Agora sois vós que se matou e eu não precisei de fazer nada para isso.
Até nunca,
Emanuel."
Agora já tudo estava certo. Agora já conseguiam perceber o porquê de todas aquelas cartas, mas não conseguiam perceber o porquê de tanto ela como Jorge serem tão idênticos a Ana e a Marco.
Já estava de noite e elas decidiram abandonar o palácio. Foram para a casa de Raquel, para poder ver bem as fotografias e também para pesquisarem a família de Raquel através de cartas e fotografias.
Descobriram que tanto ela como Jorge eram descendentes de Ana e Marco daí a serem supostamente semelhantes.
Um carro ficou lá em baixo do outro lado do prédio. A pessoa não desistiu de as seguir e ficou lá a noite toda.
Na manhã seguinte as duas amigas foram para a escola, e quando estavam a sair do prédio, Carla reparou no carro. Ela não queria acreditar no que estava a ver. Chamou Raquel silenciosamente, e foram ao pé do carro. Raquel não conseguia acreditar no que se estava a passar. Mas que grande descaramento.
No carro estavam Jorge e Diogo com uma máquina fotográfica e uma de filmar, juntamente com mapas, e fotografias delas nas compras, no parque, na escola...
Raquel foi a casa buscar uma buzina de ar comprimido, voltou ao carro e apitou.
Eles acordaram com um salto enorme, e um bateu com a cabeça com toda a força no volante e até apitou.
Raquel pregou-lhe um murro na cara, e disse-lhe que eles não tinham nada de andar a espiar, que ele era um nojento e que estava farta dele. Já não havia volta a dar, ela não queria ouvir explicações para algo que não fazia o mínimo sentido.
Nunca mais lhe meteu a vista em cima. Sempre que ela via que era ele que aí vinha, metia-se a falar ao telemóvel, ouvia música, ou simplesmente era como se ele fosse invisível.
Passaram-se dois meses após o acontecimento.
Jorge já não era tão cobiçado como o fora outrora. Agora depois de saberem o que ele e o amigo fizeram, ninguém quis se dar com eles.
Carla esqueceu Diogo e adorou uma noticia que lhe chegou aos ouvidos, podia não ser de fonte segura, mas só podia ser verdade.
Jorge e Diogo adoraram seguir e pesquisar o que ambas faziam, com quem falavam, entre outros, mas veio-se a descobrir que se enganaram nas pessoas que deveriam pesquisar.
Rocksana namorada de Jorge (desde que Raquel acabara com ele) andou o tempo todo a usá-lo para conseguir apenas bem material, pois o resto ela dizia que isso não era para ele mas sim para o outro.
De que serviu ele armar-se em paparazzi?
Serviu para ele ver que afinal deveria pesquisar quem não conhece e deixar as pessoas que convivem com ele em paz.
A conclusão que este paparazzi chegou foi que ele tinha de ser paparazzi de si próprio, pois chegou à conclusão que não sabia nada de si.
A isto eu chamo "Estagiário de Paparazzi".



