Vagueei pela Medina apenas com o meu olhar à vista dos demais. Ninguém me poderia reconhecer naquela que seria mais uma das muitas saídas até ao homem de quem eu amava. O som do mercado significava que o dia estava prestes a terminar e as pessoas estariam em casa, mas eu não voltaria assim tão cedo.
Havia uma festa onde véus e saias iriam voar através de corpos sensuais que dançavam ao som de dança do ventre.
Fiquei por lá durante uma hora a dançar. O meu sari cor de rosa clarinha definia a minha silhueta em todos os meus movimentos. Passado uma hora cobri-me novamente com o meu véu e sai para o meio da escuridão.
O ar estava quente e com o seu cheiro doce habitual.
Corri até ao nosso porto de abrigo, onde mais ninguém nos iria encontrar na tamanha felicidade que nos unia.
Senti que estava na altura e na hora de dar aquele passo. Jamais seria outro se não ele.
Percorri o longo caminho de pilares e labirintos.
Começou a chover.
Olhei para o céu contemplando a sua cor.
Estava na hora.
Observei-o através das sombras sem que ele me visse. Contemplei a sua beleza inconfundível,o seu cabelo, os seus olhos, o seu nariz, os seus lábios...
Surgi-lhe por entre as colunas, ele via-me e aproximava-se, mas eu afastava-me.
Fui despindo a minha roupa molhada sem que ele se desse conta, ficando apenas com a roupa da dança do ventre.
Comecei a dançar e a fazer o meu jogo de sedução.
Ele assistia de olhos esbugalhados e brilhantes sem conseguir acreditar que eu estava ali a dançar para ele.
Fui aproximando-me devagarinho dançando com o véu à minha volta formando uma espiral.
Ele chorava e ria-se ao mesmo tempo.
Cheguei finalmente ao pé dele e envolvi-o com o meu véu. Abraçamo-nos.
Andámos por colunas e pilares de outras eras, de mãos dadas.
As paredes que nos protegiam tornaram-se assim em testemunhas da nossa entrega.
O som da areia a passar perto de nós fazia o tempo e o lugar mudarem como nas areias do deserto.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
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1 comentário:
Ai esse romance escondido, proibido...tão nosso e natural, tão único!
Antigamente era assim que acontecia. A entrega era feita entre as paredes apertadas, os caminhos mais absurdos e escondidos. Os lugares mais inadequados porque o adequado naquele tempo nem era permitido.
Chamam a isso de Haram...eu chamo a isso de amor.
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