Por vezes sinto que tudo isto não passa de um sonho e que vou acordar para a realidade, mas a verdade é que o sonho é a própria realidade.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Return to the Gothic Santuary

Há dois anos que não via aquela rosa. Estava igual à altura em que a vi no meu santuário, em cima do piano preto de cauda.
Ao lado dela estava a partitura que toquei naquela noite.
Sentei-me no parapeito da janela abraçando a rosa. Li a partitura, ouvindo a sua doce melodia mentalmente. Adorava poder tocá-la novamente, sentir as teclas do piano por baixo dos meus dedos, sentir a vida da música em mim.
Decidida a voltar ao santuário vesti novamente aquele vestido preto de cauda e levei comigo a rosa e a partitura.
Passei pela floresta decidida a por um ponto final na história, a por um ponto final numa história que durou dois longos e dolorosos anos da minha vida.
A floresta estava diferente desde aquela noite de inverno. Agora estava menos fria, menos pesada, mais alegre, com mais vida.
Descobri a entrada do santuário na abertura de uma rocha enorme. Quando fiquei sem a luz da lua, uma tocha acendeu-se como se eu tivesse tocado em algum fio que a pudesse acender assim do nada. Peguei nela e penetrei pela escuridão das escadas que iam descendo sem cessar. Percorri o enorme corredor que levou até à ponte. A ponte era adornada por elementos góticos, belos e sublimes.
Segui em frente e entrei no meu santuário.
A sala estava escura. Respirei fundo, o meu coração palpitava fortemente no peito. Eu nem conseguia acreditar que lá voltara. Posei a tocha num sitio próprio para ela na parede e segui em frente.
A sala ficou iluminada à minha passagem. O chão continha pétalas de rosas tal como na primeira vez.
O santuário já não estava em ruínas, no lugar de buracos existiam janelas adornadas com longas cortinas de veludo. Sorri por saber que aquele local também mudou para melhor. Estava mais acolhedor, apesar de ainda se sentir a dor que por ali passou, era possível respirar-se ar puro.
Segui as pétalas e ali estava o piano preto de cauda com uma carta em cima da tampa das teclas e uma rosa igual à que eu tinha junto a mim.
Percorri o piano com a minha mão até chegar à carta. Sentei-me e abri-a. Dentro do envelope estava um frasco com água. Era água da chuva. Senti um aperto no peito e comecei a ler a carta que dizia:
"Nem sempre o mundo é justo para nós, há muita dor e sofrimento e por vezes sentímo-nos sós e sem amparo. Quem nos diz que estamos mesmo sós? Poderá algum dia uma planta estar só? Será que um pássaro que não consegue voar está só? Nunca estamos sós, apesar de o acharmos que estamos.
A planta nunca está só, pois tem a terra para a sustentar e para cuidar dela de dia e de noite. O pássaro apesar de não voar não está só, pois tem todos os membros do seu bando ali para o amparar e tu? O que é que tu tiveste? Tiveste a natureza.
Tiveste as tempestades, o frio e o calor, o vento, tudo. As tempestades foram a maior prova disso, foram a prova viva de que as coisas não estavam bem e que tu não estavas só.
Aí tens um pouco da chuva desses tempos para que te lembres sempre da grande lição que tiveste.
Chovia porque choravas."
Terminei de ler a carta e voltei a rele-la, olhando para aquele frasquinho.
Pousei a carta e contemplei a sala. Tudo mudara para melhor. Tinha novas pinturas, novas estátuas, muitas flores...
Voltei a observar o canto onde ele aparecera naquela vez mas ele ali não estava. O meu violino estava guardado numa caixa de vidro, abri-a com todo o cuidado e toquei. A música era vibrante, alegre, completamente diferente da primeira vez. Eu estava feliz.
Coloquei o violino no sitio e voltei ao piano decidida a tocar uma balada. Comecei a tocar as notas mais graves até que o som começou a ficar mais belo. A melodia fez-me voar, sentir-me viva, sentir-me livre. Comecei a cantar enquanto tocava e nesse instante... Um violino começou a tocar ao meu lado. Eras tu quem ali estava novamente, sorrindo e acompanhando-me, um autentico anjo.
No fim pegaste na minha mão, abraçaste-me e beijaste-me.
Disse-me ao ouvido que me amavas e que querias ter-me junto a ti. Disse-te que queria o mesmo que tu e saímos dali abraçados.
Lá fora o dia estava a nascer e nas nossas vidas uma nova etapa começara.
                                                 ...
Acordei com um enorme sorriso nos lábios e com os meus dedos entrelaçados nos teus. Nem acredito que voltei a sonhar com aquele santuário onde outrora eu chorei vezes sem conta. Onde eu sofri sozinha na calada da noite sem que ninguém notasse.
Lá dentro ficou a partitura e a flor e comigo veio o frasquinho da chuva. O dia estava totalmente radioso.

Sonho de Criança

Já se passaram anos desde que sonhei contigo, era apenas uma inocente criança que sonhava em lutar pelos sonhos custasse o que custasse.
Depois de mais um dia rendi-me ao cansaço e cai nos braços da minha cama que me acolheram e me envolveram para mais uma noite.
Fechei os meus olhos, o mundo dos sonhos abriu-me as suas portas e entrei.
                                                 ...
Lembro-me de observar os teus olhos amendoados, o teu sorriso delicado, o contorno da tua face.
Tinhas uma pele suave, um cabelo rebelde e um grande coração.
Apaixonámo-nos perdidamente um pelo outro, quis ficar junto a ti, ficar envolta nos teus braços, poder abraçar-te, beijar-te.
Disseste-me que te irias embora mas que voltarias um dia para me vires buscar.
Fiquei à tua espera, passava algumas horas todos os dias a observar a rua na esperança de te vir chegar. A saudade apertava-me o peito e eu suspirava a cada dia que passava.
Certo dia tu chegaste por entre as árvores. Vinhas com uma t-shirt branca, o casaco na mão... Eu só podia estar a sonhar ou a ter alguma miragem. Corri para ti, abri os braços, saltei para o teu colo e envolvemo-nos num beijo apaixonado.
Passamos o dia a namorar, quis saber tudo o que fizeste e disseste-me que tinhas uma surpresa para mim.
Os meus pais descobriram a nossa relação e tentaram impedir, mas já era tarde de mais. Esperava um filho teu e eu queria ficar contigo. A minha família não quis aceitar a relação e a minha mãe perguntou-te como é que irias conseguir sustentar uma família.
Construíste a nossa casa, era de madeira e ficava no campo. Quando ficou pronta, foste buscar-me a casa, ajudaste-me a fazer as mudanças e fui viver contigo. Deixei uma carta dirigida aos meus pais.
A minha barriga crescia a olhos vistos, o meu pai não me falava, mas a minha mãe andava de olho em mim e acompanhava o crescimento do neto que eu carregava.
O bebé nasceu, nós os dois estávamos radiantes e felizes. A minha mãe não conseguia fingir que estava completamente encantada com a criança e certo dia decidiu bater à nossa porta.
Abri a porta, o bebé dormia na caminha, a minha mãe chorava. Trouxe-a para dentro, para podermos conversar e apresentei-lhe o nosso menino. Finalmente ela aceitou o facto de eu estar casada e ficou o tempo todo com o pequenino nos braços dela, embalando-o e sorrindo.
                                                 ...
Eram 11 da manhã, acordei sentindo que o meu corpo estava muito leve.
Procurei-te durante esse dia inteiro sem cessar.
O dia primaveril estava calmo, mas o meu coração estava agitado. Queria encontrar-te, poder abraçar-te e não te deixar partir.

Amo-te coração.